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CBF não cumpre promessa e deixa jogadoras sem carteira assinada e benefícios

CBF não cumpre promessa e deixa jogadoras sem carteira assinada e benefícios

Lucas Coelho

Quando foi formada a seleção brasileira permanente de futebol feminino, no início de 2015, as jogadoras que atuavam em clubes nacionais deixaram as agremiações para se dedicarem exclusivamente ao time treinado por Vadão, com a promessa de um contrato assinado e todas as suas garantias. Mais de um ano depois, isso ainda não aconteceu.

Segundo apurou o espnW, os pagamentos são depositados seguindo acordos verbais com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Os montantes são compostos por diárias iguais entre as atletas e o “salário”, que se distingue em três categorias, sendo maior para as jogadoras mais antigas e experientes com a camisa da seleção.

Algumas atletas, porém, reclamam que não foi isso o prometido quando o projeto foi proposto no fim de 2014. A meio campista Rosana Augusto, a goleira Andréia Suntaque e a atacante Gabi Zanotti afirmam que, desde o início, a conversa era outra.

A PROMESSA

“O Vadão disse que iríamos nos apresentar no dia 26 de janeiro de 2015 e levaríamos nossa documentação, carteira de trabalho, CPF, tudo para sermos registradas”, conta Andreia. “Nos apresentamos e ficamos esperando.”

De acordo com Rosana, “foi falado que teria um contrato. Algumas meninas já tinham assinado com alguns clubes, e muitas desistiram justamente porque queriam estar na seleção para disputar Copa do Mundo do ano passado.”

Gabi Zanotti corrobora a informação das colegas. “Entregamos toda a documentação exigida. E aí se passaram meses, um ano e meio, e ninguém tem contrato até hoje. Não tínhamos nenhuma segurança. Prometeram carteira de trabalho assinada e não assinaram. Ficaram com elas (as carteiras de trabalho) até um pouco antes do Mundial.”

As três dizem que o elenco passou à CBF todos os documentos necessários para que fossem feitos os contratos.

Rosana (dir.) esteve nas últimas quatro Olimpíadas e participou do Mundial em 2015

Rosana (dir.) esteve nas últimas quatro Olimpíadas (Crédito: Getty)

“Pedimos explicações de quais seriam os benefícios. Achávamos importante porque teríamos o FGTS, 13º e a garantia de continuar na seleção. Esse é o meu pensamento”, defende a experiente Rosana, uma das que mais questionou os dirigentes.

Como no futebol feminino os contratos são geralmente curtos, um acordo que serviria de janeiro de 2015 até pelo menos agosto de 2016 era bem visto (as atletas que acertaram com times do exterior atuam em seus clubes e se apresentam apenas para as competições ou quando estão liberadas). Como diz Andreia, “todas tínhamos clubes, algumas fora, outras no Brasil. Era um risco, nós queríamos uma segurança dentro da permanente.”

“Quando a gente se apresentou, fizemos uma reunião com o Fabrício Maia (Coordenador Técnico da Seleção Feminina) e ele passou o salário de cada uma. Esse salário seria pago junto da diária e teoricamente era o que constaria na carteira”, revela a goleira. “Todos os meses o salário caía, disso eu não posso reclamar. A única coisa é que era descontado cada vez um valor. Eu não tenho problema em dizer que meu salário era R$ 4 mil e vinha com os descontos às vezes R$ 3700, R$ 3500, ou R$ 3400.”

Os valores abatidos eram explicados às atletas como provenientes do vínculo empregatício.

“Pagavam por depósito, mas sempre vinham descontos, acredito que era o INSS”, explica Rosana. Segundo ela, a CBF fornece um comprovante do quanto foi pago para as jogadoras utilizarem na declaração do Imposto de Renda.

Marco Aurélio Cunha, Coordenador de Futebol Feminino da CBF, explica que a variação nos valores descontados acontece de vez em quando por conta de erros contábeis. “Conversamos com todas, não temos problemas. Questionam às vezes quanto a cair uma diária a mais para uma, a menos para outra. Isso acontece e é corrigido. Se eram 19 diárias e foi pago 18, é um erro contábil, não tem relevância.”

As jogadoras acreditam que, sem o contrato, foram prejudicadas por não receberem algumas garantias como Fundo de Garantia, 13º salário e até Plano de Saúde. “Prometeram que teríamos Unimed, os melhores hospitais, clínicas, que seria o Plano top de linha mesmo. Cancelei meu Plano de Saúde na época e acabei ficando sem”, lamenta Gabi.

O BOLSA ATLETA

Depois de alguns meses sem contrato, o cerne da discussão se tornou o benefício fornecido pelo Governo Federal. A grande dúvida era se a assinatura de um contrato com a CBF invalidaria a Bolsa para as jogadoras.

“Eles demoraram muito para responder e, em maio, começaram as inscrições. A gente não sabia se quem tinha carteira assinada poderia receber”, diz Rosana. “No Feminino, a renda é muito baixa. Você trabalha quase 24 horas por dia, porque fica lá concentrada. A Bolsa é um complemento importante. Ficamos com medo, e as meninas acharam melhor não perder o benefício.”

Andreia foi uma das atletas que lidou diretamente com o Ministério do Esporte em relação ao Bolsa Atleta. “Ligamos para o Ministério e esclareceram que precisávamos fazer a inscrição até determinado prazo e optar por receber a Bolsa ou sermos registradas. Foi por isso que optamos pela Bolsa, porque não estávamos registradas, não porque decidimos. Pedi minha carteira de volta e fiz a inscrição.”

Andreia foi goleira titular da seleção na Olimpíada de Londres, em 2012

Andreia foi goleira titular da seleção na Olimpíada de Londres, em 2012 (Crédito: Getty)

Segundo Marco Aurélio Cunha, a dúvida realmente existia. “A CBF recolheu as carteiras, eu estava chegando. Isso não partiu da minha gestão, nem é consequência da minha gestão. Para a CBF, não há nada que impeça de fazer um contrato, mas havia um conflito de interesse. A dúvida era se poderia fazer um contrato profissional, se por acaso com o contrato de trabalho elas perderiam o direito ao Bolsa Atleta.”

Diante do impasse, o dirigente diz que manter os acordos verbais acabou sendo o caminho. “Foi a forma construída para legitimar o salário sem prejudicar as que recebem o Bolsa Atleta. Mas tudo é coberto pela CBF: exames clínicos, alimentação, viagem para seus estados natais e residências, passagens de avião ida e volta.”

Segundo o coordenador, “elas preferiram não fazer o contrato profissional. Preferiram receber as diárias e o que nós chamamos aqui de ‘Bolsa CBF’, para auxílio da modalidade. E isso foi muito bem aceito. Estou com 20 e tantas jogadoras aqui, e nunca ninguém me questionou sobre isso.”

As atletas, porém, garantem que só aceitaram estes termos por medo de ficar sem nenhuma das duas coisas, já que esperaram o contrato por meses.

“Quando surgiu a questão da Bolsa, procuramos o Fabrício e o Vadão. Eles entraram em contato com a CBF e disseram que realmente não estávamos registradas”, conta Andreia. “Eu sei que dizem que a gente optou, mas isso é uma mentira. Se a gente não quisesse, não iríamos entregar nossa Carteira de Trabalho. No período dentro da seleção, em nenhum momento tive contrato. Foi tudo por boca mesmo. Passamos a conta, o dinheiro caía, mas nada além disso.”

A atacante Gabi Zanotti também nega que tenha sido uma escolha desde o princípio. “Chegaram a falar que não tivemos interesse em assinar a Carteira, mas na verdade todo mundo entregou os documentos.”

Marco Aurélio Cunha rebate: “É mentira. Chegou-se à conclusão aqui entre todas elas de que era melhor fazer assim. Quando estava tudo pronto, elas decidiram que não valia o risco e era melhor não ter (o contrato assinado). Em comum acordo, elas decidiram fazer assim.”

A reportagem do espnW entrou em contato com o Ministério do Esporte para esclarecer a situação. Segundo o Ministério, a justificativa de que o contrato invalidaria o benefício não procede. Os critérios para o Bolsa Atleta são mais esportivos, e apenas requerem que as atletas estejam em treinamento e participando de competições esportivas, e vinculadas às federações e confederações.

Um exemplo citado pelos responsáveis é dos atletas do vôlei de praia que não têm clube e treinam na praia. Eles são filiados diretamente à confederação e mesmo assim são contemplados no programa. Além disso, dentro do futebol feminino, as jogadoras do Santos-SP também são registradas com contratos profissionais e recebem o benefício.

Sobre as atletas da seleção permanente, ocorreu um contato com a CBF para confirmar o vínculo delas com a entidade. Houve um entendimento e o pagamento é realizado diretamente às jogadoras, mas o contrato assinado não impediria que isso acontecesse.

FORA DA SELEÇÃO

Nem Andreia, nem Rosana, e nem Gabi estão na lista final para a Olimpíada. Ao longo deste último ano e meio, elas foram deixando de ser convocadas para a seleção permanente.

Gabi Zanotti também participou da Copa do Mundo ano passado (Crédito: Getty)

Gabi Zanotti também participou da Copa do Mundo ano passado (Crédito: Getty)

Depois do Mundial de 2015, Rosana teve problemas financeiros e optou por jogar fora do País. “Eu estava para perder minha casa. Como a gente não tinha nenhum contrato, nenhuma garantia, eu aceitei uma boa proposta de um clube da Noruega no qual já tinha jogado. Assim, consegui quitar parte da minha dívida.”

Após sua saída para a Europa, não voltou mais à seleção. “Fui para lá, mas achei que tinha ficado tudo esclarecido. Só não joguei o Pan-Americano, assim como a Marta e a Bia. Mas depois não tive mais nenhum contato. Não acredito que tenha sido por causa dessas cobranças (por contrato).”

Rosana esteve por mais de 16 anos na seleção. Depois de deixar a Noruega, foi para o Paris Saint Germain, onde assinou um novo contrato curto, por seis meses. Apesar de não ter jogado tanto quanto gostaria – lidou com a perda do pai no período – quando jogou, foi bem. Ela conta que seu novo técnico chegou a questioná-la do porquê de não ser mais convocada para defender o Brasil.

Gabi Zanotti passou por um processo parecido depois que foi atuar na China. “Não teve explicação. Não fui para os amistosos no Canadá (no início de 2016), nem para essa convocação final para ficar treinando em Itu antes de sair a lista olímpica.”

“Sinceramente não sei o que aconteceu, mas assim que eu perguntei em relação ao Direito de Imagem do ano passado, que a gente recebeu um valor muito baixo, coincidentemente teve a convocação para o Canadá e eu não estava relacionada. Não sei”, lamenta a atacante.

Gabi afirma que entrou em contato com Vadão para saber os motivos de sua ausência, “se seriam técnicos, táticos, físicos ou algo pessoal”. “Ele disse para eu ficar tranquila, que se tivesse de ser convocada eu seria, normalmente.”

Hoje, tanto Gabi quanto Rosana têm duas companheiras de clube cada na lista final da seleção olímpica: Fabiana e Debinha, que pertencem ao Dalian Quanjian, e Érika e Cristiane, atletas do PSG.