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‘É cansativo ter que provar a todo momento que posso ser uma bombeira’, diz oficial sobre os desafios da profissão

‘É cansativo ter que provar a todo momento que posso ser uma bombeira’, diz oficial sobre os desafios da profissão

Arquivo Pessoal

Por Nataly Paschoal

Coragem e doação pessoal para ajudar o próximo são virtudes que independem de gênero e requisitos essenciais para ingressar no Corpo de Bombeiros. Mesmo assim, mulheres ainda são uma minoria neste meio. Rafaela Contri, capitã da corporação no Rio de Janeiro, é um dos exemplos de mulheres que romperam essa barreira.

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Rafaela sempre viveu no meio militar, e no fundo sabia que seguiria na área (Arquivo pessoal)

E tudo começou de forma um tanto curiosa: em 2006, então estudante de Engenharia de Automação, a filha de militar se rendeu ao curso que fazia seu coração bater mais forte, o de formação de oficiais. “Ingressei pela universidade estadual do Rio, e escolhi a opção para a Academia de Bombeiro Militar Dom Pedro Segundo”, conta.

No curso, que tem duração de três anos em regime de internato, Rafaela logo percebeu a desproporção entre os gêneros. “Havia 40 vagas, duas foram preenchidas por mulheres, sendo eu uma delas”, conta. Em relação ao treinamento físico, não há diferenças de gêneros.

Ou seja, Rafaela e sua colega passaram pelo mesmo que os homens. “Ele é feito de segunda a sexta na aula de educação física”, diz. “Durante a semana também tínhamos aulas operacionais de resgate, busca, e outras que exigem maior rigor físico”, completa.

“Ter visto um pouco de operações como busca e resgate em geral fizeram com que eu me identificasse com os bombeiros”, diz Rafaela. Mesmo ciente dos riscos de atuar nela prosseguiu firme e fez cursos de especialização, como o de operações de salvamentos em desastres, desabamentos, soterramentos, enchentes e inundações e o de salvamento em montanhas. O primeiro, por conta de duas grandes operações que realizou; o segundo, por ter a escalada como um dos seus hobbies.

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Rafaela pratica escalada, por isso especializou-se em salvamento de montanha para fazê-lo em segurança (Arquivo pessoal)

Cabeça fria e nervos de aço

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Ter calma em momentos de perigo é essencial para ser bombeiro (Arquivo pessoal)

Foi em 2010, pouco tempo depois do final do curso de formação, que ela vivenciou o episódio mais marcante de sua carreira. “Na mesma época do deslizamento do morro do Bumba, em Niterói, houve também um na comunidade de Santa Maria, onde eu prestava serviço”, relembra. “Era noite, estávamos fazendo uma pausa para trocar a equipe, e ao sairmos da área de trabalho para fazer isso houve outro deslizamento no local”, completa.

Para encarar circunstâncias como essa – e a série de deslizamentos em Nova Friburgo em 2011, episódio que também marcou sua carreira – o treinamento físico e psicológico é fundamental. “Somos treinadas para agir sob pressão emocional, então o que desestabilizaria alguém ‘normal’, nós temos que aprender a lidar”, conta Rafaela.

Machismo, uma chama difícil de apagar – assim como a do amor pela profissão

Mas mesmo com tanto preparo e dedicação, há ainda quem questione sua capacidade. “A maior dificuldade é o preconceito por eu ser mulher”, conta. “Sempre tem alguém que duvida da minha capacidade, é cansativo ter que provar a todo momento que posso ser uma bombeira”, continua. Ela usa como exemplo um episódio em que perdeu a vaga em um curso nos EUA: “Um membro do alto escalão, acima do meu comandante, vetou minha ida porque eu era mulher e me disse que só mandariam homens”, relembra.

Apesar disso, Rafaela seguiu na profissão que ama e até influenciou seu marido. “A gente se conheceu antes de eu entrar na corporação”, conta. “Três anos depois que eu estava lá, ele se interessou, fez a prova e hoje também é oficial do Corpo de Bombeiros”.

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